O Código da Diversidade

Por Outubro 16, 2017

“Agora nem HTML e nem CSS me botam medo”, me disse Luiza, uma das participantes da primeira oficina da PrograMaria. O calorzinho no coração me deu a certeza de que estava no caminho certo

Sempre gostei muito de tecnologia. Nasci em São Paulo, mas passei boa parte da minha infância e adolescência em um sítio na Serra do Japi, em Jundiaí. Meus pais tinham um pesqueiro por lá. Na época, lagos com peixes, cachoeira, cavalos e um céu estrelado não me convenciam: eu queria mesmo era ir ao shopping e às festas dos meus amigos – algo que era difícil pela enorme distância do sítio até a cidade e também porque eu tinha que ajudar meus pais durante os fins de semana.

Quando chegou o computador, minha vida mudou. A internet ainda não estava ao alcance, mas um mundo se abriu: poder brincar que mandava e-mail, acessar enciclopédias nos disquetes, ou fazer animações usando programas de apresentação, eram meus passatempos preferidos. Com a chegada da internet, veio a revolução. Esperava ansiosa dar meia-noite para poder navegar nos infinitos blogs e escrever qualquer baboseira pré-adolescente no meu. Foi quando comecei a perceber que havia uma outra linguagem muito poderosa no mundo: a programação.

Passaram alguns anos e, já formada em Jornalismo, reflito sobre o contra-senso: para uma área que entrega inovação, a tecnologia está muito atrasada quando se fala de diversidade. No Brasil, as mulheres representam hoje pouco mais de 15% das matrículas relacionadas à computação. É muito pouco. Como inovar de fato se o grupo que produz essas inovações é tão homogêneo?

Só me dei conta de que existia um problema enorme de representatividade de gênero na área quando vivi na pele como era estar em uma empresa de tecnologia e ser a única mulher. Até então, nunca havia refletido sobre esses números. Achava, como muitos, que se tratava apenas de uma questão de interesse. Afinal, se as mulheres quisessem aprender a programar, elas simplesmente iriam. Certo? Errado.

Existe uma narrativa em nossa sociedade de que as mulheres “não servem” para as áreas de exatas, não são boas em matemática e preferem carreiras mais ligadas aos cuidados e às artes. E essa narrativa faz com que as meninas recebam uma educação completamente diferente daquela que os meninos recebem, algo que vai direcionar as habilidades que desenvolvem, sua confiança em suas competências e, logo, as escolhas e os caminhos que vão trilhar. Para a grande maioria das mulheres, o universo tecnológico é algo distante, difícil e inatingível. Como querer que alguém se interesse por algo que parece tão distante?

Mergulhamos a fundo em pesquisas e investigações sobre as barreiras que afastam as mulheres da área. Caso você se interesse mais sobre o tema, basta acessar esse link.

O fato é que ainda há muita falta de conhecimento sobre o assunto, sendo o caso mais recente o do ex-engenheiro do Google que escreveu um manifesto de 10 páginas tecendo argumentos e estudos para atacar as políticas de diversidade da empresa. Entre os argumentos, a ideia de que as mulheres são minoria na área por questões biológicas, já que elas se interessam por “pessoas” e não por “coisas”.

Diante dessa inquietação, reuni-me com outras jornalistas, designers e programadoras para criar uma iniciativa para empoderar mulheres com tecnologia e programação. Queremos inspirar meninas e mulheres a explorar esses campos, fomentar e qualificar o debate sobre o tema e promover oportunidades de aprendizagem.

A PrograMaria, coletivo que dirijo, surgiu dessa inquietação e de outros dois fatores: a falta de mulheres na tecnologia e, de outro lado, a crescente importância da área. Faltam programadores qualificados, independente do gênero, e, mesmo que as mulheres que formamos não se tornem desenvolvedoras, aprender o básico de programação confere autonomia e permite trabalhar melhor com a equipe técnica. Mais do que isso: a tecnologia nada mais é do que uma ferramenta para solução de problemas e, se queremos uma sociedade mais justa e igualitária, precisamos que mulheres e outros grupos com menor representatividade também contribuam com suas perspectivas.

Durante essa jornada, fizemos nove oficinas e três edições do Curso Eu Programo. A demanda é gigantesca. Na última turma do curso, patrocinada pela CA Technologies, tivemos que escolher 27 mulheres entre 896 candidatas! Por isso, quando nos perguntam qual é a principal coisa a se fazer para resolver a questão das mulheres, temos cada vez mais convicção: é preciso desconstruir os estereótipos machistas.

As mulheres que nos procuram têm uma coisa em comum: a enorme vontade de aprender acompanhada do enorme medo de não dar conta. O TED de Reshma Saujani, CEO do Girls Who Code, resume de maneira brilhante esse peso que as mulheres carregam: “estamos criando meninas para serem perfeitas, e meninos para serem corajosos. (…) Nossa economia e sociedade estão perdendo [por isso]. Esse déficit é o motivo de as mulheres terem baixa representação em CTEM, conselhos executivos, reuniões, Congresso, em praticamente todos os lugares que olhamos”.

Por isso, meu coração se aqueceu quando a Luiza me contou que não tinha mais medo das linguagens de programação. Sem medo, as mulheres se permitem tentar, errar e… Aprender. Precisamos contar às mulheres que elas são incríveis e capazes de fazer coisas que nem imaginam!

Escrito por Iana Chan
Jornalista e cofundadora da PrograMaria
LinkedIn: @ianachan

 

 

A CA Technologies é apoiadora da PrograMaria e acredita que o lugar das mulheres é onde elas quiserem estar – inclusive no mercado de TI – e trabalha para tornar o setor mais igualitário.