Os bancos serão abertos!

Por Fevereiro 26, 2018

As APIs têm demonstrado poder para transformar todo e qualquer segmento de negócio. Exemplos não faltam na indústria do entretenimento, no comércio, na educação e nos meios de comunicação. Mas, e no segmento financeiro?

Historicamente, o segmento financeiro sempre priorizou a criação de mecanismos para proteção dos seus dados e processos. Afinal de contas, confiança e solidez são elementos chave na estratégia de qualquer instituição financeira, e um forte esquema de segurança é essencial para ganhar essa confiabilidade.

Entretanto, o comportamento dos clientes está mudando. As pessoas buscam segurança, simplicidade, velocidade e, sobretudo, conveniência na utilização dos serviços financeiros, em outras palavras, a famosa “customer experience”. Isso estabeleceu um novo paradigma para indústria financeira e um “caminhão” de novos desafios e problemas para resolver.

Para superar todos esses desafios, uma tendência vem ganhando destaque cada vez maior nas mesas e mentes dos responsáveis pelas estratégias de inovação dentro dos bancos.

Você já ouviu falar em Open Banking?

Trata-se do termo usado para se referir à disponibilização de APIs abertas, utilizadas por desenvolvedores externos para construção de serviços e aplicativos em torno da instituição financeira. Incorporando desenvolvedores e idéias externas dentro de uma estratégia corporativa de inovação, estas instituições podem chegar a soluções mais atraentes para seus clientes de forma mais rápida e com custos mais baixos de desenvolvimento.

Para que vocês possam ter uma idéia do que estou falando, o governo da Inglaterra está estudando abrir APIs do seu sistema bancário para que empresas possam oferecer serviços que proporcionem aos consumidores uma melhor compreensão das ofertas bancárias. Esse movimento permitiria aos clientes uma melhor comparação entre diferentes bancos e seus produtos financeiros. O governo espera que isso aumente a transparência dos serviços bancários, aumentando a concorrência e, sobretudo, a qualidade dos serviços que são prestados aos consumidores. Assim como a Comparethemarket.com, empresa que transformou o processo de compra de seguros no Reino Unido, faz hoje.

Exemplos bem-sucedidos já existem para demonstrar essa nova realidade. É o caso do Credit Agricole, que disponibilizou uma série de APIs e possui, desde 2012, uma app store (sensacional!) com dezenas de aplicativos para as mais diferentes funções. Desde o lançamento, mais de 50 equipes de desenvolvimento contribuíram com apps para loja, um retumbante sucesso.

Mas talvez a mais promissora seja a do BBVA. Por definição de sua estratégia digital, o BBVA procura identificar e mobilizar, tanto dentro, quanto fora do banco, possíveis interessados em inovação (“innovation stackholders”). Para isso, adotou um modelo de negócio, baseado em uma plataforma aberta, que proporciona a empresários, desenvolvedores, clientes e funcionários a oportunidade de contribuir com a criação de serviços, aplicativos e a customer experience que eles querem e esperam do banco.

Para incentivar e aumentar o conhecimento sobre sua plataforma, em 2013 o BBVA lançou um concurso chamado InnovaChallenge. A intenção era identificar, a partir de uma massa de dados com as operações de cartão de crédito das cidades de Madrid e Barcelona, as ideias e aplicações mais interessantes. O sucesso foi tão grande que, em 2014, foi lançado um novo concurso, denominado InnovaChallenge MX. O BBVA criou uma API, com 04 serviços REST, que fornecia acesso a um conjunto de dados com as operações de cartão das cidades de Monterrey, Guadalajara e Cidade do México e disponibilizados através do seu portal para desenvolvedores.

Algumas outras iniciativas têm sido realizadas para alavancar essa tendência junto às instituições financeiras. A primeira delas é o OpenBankProject, que busca criar um padrão comum de APIs de código aberto para serem utilizadas por diferentes instituições financeiras. Bancos como o Deutsche Postbank e o Berliner Sparkasse já adotaram essa iniciativa.

Outra que vem sendo bastante utilizada para alavancar a inovação e criar um ecossistema de desenvolvedores são os Hackathons. Para quem não sabe, os Hackathons são “maratonas” de programação que reúnem profissionais ligados ao desenvolvimento, com o objetivo de criar softwares inovadores para fins específicos. No final de 2014, o Bank Leumi, uma das mais importantes instituições financeiras de Israel, promoveu um Hackthon de 36 horas em Tel Aviv, com centenas de programadores, em busca do app bancário mais inovador. O First National Bank e o Citi fizeram iniciativas semelhantes nos Estados Unidos, com uma grande resposta da comunidade de desenvolvedores.

Sem sombra de dúvidas, a segurança tem sido a principal barreira mencionada pelos bancos para uma adoção mais ampla de APIs abertas. Mas os exemplos citados acima e, principalmente, os resultados obtidos por essas instituições, têm demonstrado que uma estratégia de exposição das informações, de e para o banco, não só é uma estratégia segura, como também vencedora.

Resumindo, a questão não é mais saber se os bancos brasileiros irão utilizar APIs, mas quando e como isso será feito.

E o seu banco? Está pronto para essa nova realidade?

Escrito por Leandro Deffente
Solution Account Manager – Security & API Management CA Technologies
LinkedIn: @leandrodeffente